L'abbraccio che non ti ho dato



Relembro-te como um santuário distante.




Noutro lugar. 

E tenho medo de esquecer porque sofro da eterna vontade da pouca companhia. De um minimalismo fascinante que provoca uma amnésia silenciosa e esfomeada. Por isso tento recordar-te por palavras, que nos instantes em que desço para respirar são a panaceia que encontrei para este fascínio por um outro universo. E gosto disto. Gosto de forçar a paragem destes momentos, sabes? Queria colocar junto ao teu ouvido os sons deste meu universo. Queria que escutasses a melodia da água no rio gelado. Sabias que o rio gelado canta uma estranha melodia na escuridão polar? Nunca está silencioso. Consegues escutar os seus tons se te ajoelhares junto a ele e silenciares os teus pensamentos. Ouvirás a sua melodia estranhamente assustadora e ainda assim, acolhedora, através da parede gelada. 

Gosto de gravar essa canção. Sentar-me junto ao rio e no mais absoluto silêncio escutar os seus gemidos abafados. Gosto de caminhar nele e do frio intenso que dele emana. 

Gosto de encher os baldes com a comida que alimenta os alces todas as manhãs aqui. Mesmo em frente à entrada de casa. Sento-me nas escadas ao frio enquanto observo os quatro, por vezes cinco enormes alces que se alimentam, saídos da floresta gelada e branca. Atrás de mim, na soleira da porta os dois gatos a observar atentos os movimentos, silenciosos entre o calor da casa e o frio deste Norte. Creio que sempre procurei este estado de coisas numa espécie de transe frenético. Esta vontade esparsa de uma imensidão que me fugia entre os dedos, e que transforma em fragmentos ora de silêncio absoluto ora de euforia quase desmedida os meus instantes.

Não sei como descrever-te algo tão primordial e visceral. 

Não sei. 

Apenas que ainda estou contigo. Ainda me lembras outros instantes que não são meus. 

Outras auroras.

 

As tuas.


(Fleuma)

 

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