Redigere ad nihilum


 



Durante anos imaginei a possibilidade. Reconhecidamente tentando adormecer esse sentimento e afastando  essa ideia para outro dia. Outra época


Um erro grave. 

Testemunhar a queda no Niilismo mais profundo de Nietzsche da realidade mesmo em frente dos meus olhos tem tanto de terrivel como de fascinante. Esse é um sintoma  indismentível da raça humana e documentação de uma inevitabilidade: tudo termina. 

Assistir à decrepitude desta realidade é observar o amargurar do fim de uma civilização com o realismo do olhar pessimista de Cioran. E ainda assim, não consigo evitar um sentimento  de algo grandioso. Épico na sua decadência moral. Talvez  esteja nisso o fascínio e a força das palavras "By virtue of madness, a sign of faith"  que cravei no meu torso a negro espesso.

"Em virtude da loucura, um sinal de fé"  é o meu sentimento mais clandestino e cedência ao abandono de uma certa lógica e razão, como única alternativa para continuar a pactuar com estes tempos. Só aceitando esta loucura não como doença mental mas como uma necessidade de sobrevivência, consigo afastar do meu pensamento a inutilidade da minha presença. 

Abandonar o controlo da lógica  por uma certa loucura é
assim conseguir ainda sonhar e sobreviver. 

Gosto de lhe chamar auto preservação calculada  - mesmo que outros lhe chamem delírio paranóico.

E gosto deste estranho aconchego de uma loucura que alimenta algo tão visceral como o sentimento  de fé. Não em deuses. Mas antes na radiância da submissão à necessidade de ainda sobreviver respirando .

Ainda.

Enquanto vou afastando uma outra loucura. 

Essa que deseja incinerar este mundo. 

(Fleuma)

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